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Greve de professores mostra que país patina na educação

É consenso: valorizar os professores e garantir boas condições às escolas públicas do país são premissas básicas para melhorar nossos índices deeducação. No entanto, por mais que políticos e especialistas repitam este mantra, o setor ainda enfrenta inúmeros problemas, e avanços reais parecem estar longe no horizonte.


As dificuldades ficaram mais evidentes nas últimas semanas. Professores da rede pública declararam greve em ao menos quatro estados -- São Paulo, Pará, Paraíba e Santa Catarina. Em São Paulo, os docentes estão acampados em frente à Secretaria de Educação desde ontem. No Paraná, a paralisação durou quase um mês e terminou no início de março.


Também há mobilizações em ao menos outras sete unidades da federação. No geral, as reivindicações passam por reajuste salarial e melhores condições de trabalho.


A questão é: se sabemos que é preciso melhorar os investimentos em educação, por que não damos este passo? Segundo especialistas ouvidos por EXAME.com, o tamanho do problema é o que mais dificulta os avanços.


“Toda cidade do país tem uma escola. Então, quando falamos em valorizar o professor estamos falando de um número muito grande de pessoas”, afirma Rubens Barbosa de Camargo, professor da Faculdade de Educação da USP e especialista em política educacional.


Salários


A questão salarial é uma das mais urgentes. Em São Paulo, a média recebida pelos docentes é praticamente metade do que recebem outros profissionais com curso superior, afirma a socióloga Aparecida Neri de Souza, professora da Unicamp e especialista em relações de trabalho no campo da educação. Enquanto os professores ganham em média R$ 2.422,58, os outros recebem R$ R$ 4,247,48.


Em greve desde o dia 13 de março, os docentes da rede estadual paulista pedem 75% de aumento. O piso da categoria, para professores que trabalham 40 horas no ensino médio, é de R$ 2.415.


“Um salário desses no estado mais rico do país é uma vergonha. Fora que hoje temos salas com 50 a 80 alunos”, afirma Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Apeoesp, principal sindicato da categoria.


O governo afirma que as salas de aula têm em média até 35 estudantes, e argumenta que o piso no estado está acima do piso nacional, que é de R$ 1.917,78.


Condições de trabalho


Além do aumento, os professores em greve em São Paulo reivindicam salas menos lotadas e garantia de água nas escolas em tempos de crise hídrica.


No Pará, além do reajuste, os docentes reclamam da falta de segurança nas unidades. Segundo o sindicato local, recentemente um inspetor de alunos foi assassinado durante o trabalho. Outra reivindicação se refere à estrutura física das escolas. Os professores paraenses relatam que, com as chuvas, os prédios de algumas escolas ficaram comprometidos. Em uma unidade, o teto de uma sala desabou.


Os relatos evidenciam uma situação que tampouco é novidade. Uma pesquisa realizada pela Fundação Lemann ouviu 1.000 professores do país e constatou que as principais necessidades desses profissionais estão ligadas à dificuldade de atender seus alunos de forma adequada.


Quando questionados sobre os fatores que precisam ser enfrentados com maior urgência na educação, os professores consultados responderam: Falta de acompanhamento psicológico para os alunos que precisam (21%), indisciplina dos alunos (14%) e defasagem de aprendizado dos alunos (12%). A baixa remuneração do professor aparece em quinto lugar.


“Quando os professores falam que as condições são difíceis, não estão falando somente de salário. Sem dúvida que ser valorizado como profissional passa por ter uma remuneração adequada, mas também significa ter condições para realizar um bom trabalho. Nesse momento de greves é importante entender que não é só uma questão de reajuste”, afirma Camila Pereira, diretora de projetos da Fundação Lemann.


Prioridades


Para conseguirmos melhorar este quadro é preciso dinheiro. E é justamente neste ponto que as portas começam a se fechar, na opinião do professor Rubens Barbosa de Camargo, da USP . “O Estado faz o discurso da valorização. Porém, na hora de investir, não aplica os recursos necessários. Investir em educação é caro não dá visibilidade”, afirma.


Segundo Camargo, há um processo histórico de desvalorização da educação pública, que vem desde a década de 1960. “A educação pública só foi valorizada quando era voltada para uma parcela pequena da população. Isso começou a mudar com a maior urbanização do país e, desde então, ela nunca foi valorizada de fato”, explica.


Aparecida Neri de Souza, da Unicamp, concorda com essa avaliação, e cita o aumento significativo de professores temporários nas redes. “As condições de emprego dos professores têm piorado significativamente. Há uma disparidade de contratos temporários, pelos quais o professor é obrigado a ficar desempregado para conseguir voltar um tempo depois”, afirma.


No entanto, apesar do cenário desanimador, existem algumas boas notícias, dizem os especialistas. A lei do piso nacional do professor, em vigor desde 2009, tem ajudado a melhorar os vencimentos desses profissionais, ainda que a defasagem em relação aos outros trabalhadores seja alta.


Outro avanço é o Plano Nacional de Educação, aprovado em junho do ano passado, que estabelece uma série de metas a serem atingidas para melhorar a educação no país. “As condições de avançaram um pouco, mas ainda há muitos passos a serem dados”, resume Camargo.




Os melhores e os piores estados em matemática e português


Ceará foi o que teve a maior proporção de municípios dentro da meta em matemática para o 9º ano, com 28,3%. Na outra ponta, Alagoas teve o pior resultado


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